Talassoterapia – Parte 1
A cura pela agua do mar
Na Anábase, o historiador grego Xenofonte narra a odisséia dos Dez Mil. Esses mercenários gregos, após a morte de seu chefe Ciro, o Jovem, na batalha de Cunaxa, foram forçados a empreender uma retirada durante seis meses a fim de regressarem à pátria, atravessando montanhas e desertos. Chegaram finalmente ao alto da montanha de Teques e avistaram o Ponto Euxino. Um verdadeiro delírio de alegria apoderou-se dos soldados, enquanto se erguia um enorme clamor: “Thalassa! Thalassa!” (o mar! o mar!).O homem moderno está começando a redescobrir as incomparáveis possibilidades curativas e terapêuticas do mar, que os gregos conheciam de maneira limitada e empírica. A palavra talassoterapia entrou em nosso vocabulário usual. Ê lastimável, porém, que o uso se preste a um equívoco, aplicando- se unicamente, na linguagem corrente, aos tratamentos em estabelecimentos marinhos. Porque a talassoterapia já é um conjunto mais amplo de técnicas terapêuticas. Segundo a definição do professor Besaçon “ela compreende toda a terapêutica marinha, a cura marinha integral, desde a utilização da, água do mar até a do clima marnho, passando pelo tratamento com algas marinhas, areia do mar, lama dos lagos salgados etc.”
A evolução da Medicina de um século para cá explica os benefícios que o organismo humano retira atualmente desta medicina diferente.Foi em 1859 que Claude Bernard definiu pela primeira vez a noção de meio interior. Ele a limita inicialmente ao plasma do sangue. Em seguida, inclui o plasma da linfa e, no fim da sua vida, em 1878, sugere que o meio interior é o conjunto dos liquidos que constituem o organismo. A diferença entre as duas definições é considerável; de fato, o sangue representa apenas um sétimo dos líquidos constitutivos.No último século, alguns cientistas mais avançados acentuaram a importância deste meio interior. Alguns autores consideram como “uma nova concepção do terreno biológico” as descobertas a que chegaram. “O homem se desenvolve em seu terreno interior como o trigo na terra arada, como o estafilococo em seu líquido primitivo. Esse estado físico-químico do meio interior foi denominado terreno biológico. Em conclusão, podemos admitir que o terreno é o conjunto das características físico-químicas do meio interior que, definindo um estado orgânico num momento determinado, condiciona ao mesmo tempo a resposta à agressão.”Isso significa que o primeiro nível fisiológico é esta matriz líquida. Sua integridade constitui o estado que denominamos saúde e todo o processo patológico principia, provavelmente até mesmo quando a origem é de ordem psíquica, por uma perturbação destes traços físico-químicos.No início do século, o célebre biólogo Alexis Carrel procurou explicar o papel fundamental do conjunto dos líquidos orgânicos. “No interior do organismo — escrevia ele — as células se comportam como animaizinhos num meio escuro e morno .. . As células formam sociedades que denominamos tecidos e órgãos . . . As estruturas e funções deles são determinadas pelo estado físico, físico-químico e químico do líquido que os envolve . . . A existência dos tecidos depende do meio líquido.” Infelizmente, as pesquisas em matéria de citologia realizam-se muitas vezes como se a célula fosse uma entidade independente do meio, exatamente como se considerássemos o indivíduo humano fazendo abstração do solo por onde caminha, do ar que respira, do alimento que ingere, de seu meio social.Que relação pode ter a talassoterapia com esses comentários sobre o meio interior? Não pode ser mais direta. Porque o meio interior do vertebrado, logo do homem, é justamente a água do mar. Claude Bernard demonstrou que nosso organismo era de certa forma um aquário no qual se cultivavam as células que formam nossos tecidos. Posteriormente, René Quinton provou que se trata de um aquário marinho. A enorme massa dos líquidos constitutivos, cerca de dois terços do peso de um organismo, é fisiológica e quimicamente idêntica à água do mar.Em 1895, durante uns dias de outono passados em sua propriedade da Bourgonha, René Quinton vê um empregado da casa carregando uma cobra adormecida pelo frio que recupera rapidamente sua mobilidade no ambiente tépido da sala. O entorpecimento causado pela aproximação do inverno e o despertar das funções graças ao calor-ambiente provocam em Quinton uma intuique se expressa dessa maneira: a natureza não criou os animais para dormir.
No caso de Quinton, a intuição que teve ao observar o despertar da cobra está ligada a um conceito filosófico. Trata-se de alguém fortemente marcado pela ciência e que acredita na evolução. Mesmo assim, considera que há algo falso ou incompleto na teoria de Darwin e de seus discípulos. Na sua opinião se as formas evoluiram através das adaptações , foi para melhor proteger certas constantes originais da vida , que condicionam a conservação de sua mais alta capacidade por um funcionamento intensivo das células.
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