A China constitui-se num país de história complexa, que observou uma evolução contínua e conheceu pouquíssimas influências externas. Criou uma civilização original e profunda, expandindo conhecimentos em todas as áreas da aventura humana, devendo-se aos chineses um sem número de invenções: a bússola, a pólvora, o papel e a impressão; além dos óculos, a tecelagem da seda, sofisticados instrumentos para mensurar a terra e o cosmos, um calendário lunar e solar de uso simultâneo, a caneta e muitos mais.
A Medicina Clássica Chinesa constitui-se numa das mais antigas doutrinas médicas da humanidade, ainda em uso corrente e albergando um conjunto de procedimentos terapêuticos em contínua evolução e modernização que não despreza, todavia, seus milenares recursos e postulados. As práticas terápicas citadas no Huang Di Nei Jing (Cânon interno do imperador amarelo) possuem raízes deitadas há mais de 5.000 anos antes da era cristã, enfeixando uma somatória de ensinamentos memoriais.
O mais antigo manuscrito preservado do Nei Jing data de 720 ª C., no período Zhou, época marcada por grande florescimento cultural. O livro é uma compilação em duas partes: o Suwen (“Questões sobre a emergência da vida”) expõe toda a doutrina, a fisiologia energética entre os zang fu, a teoria dos meridianos, as fases do diagnóstico e os estágios observáveis nas evoluções das doenças; e o Lingshu (“Eixo dos espíritos”) , que trata das condutas terapêuticas, dos preceitos práticos e modos de efetivar os tratamentos.
Juntamente com o Shennong Nong (“Matéria médica do agricultor divino”), surgido no primeiro século da era cristã, dedicado aos fitoterápicos e suas condições de uso; e do Shang han lun (“Tratado dos ataques causados pelo frio”), escrito por Zhang Ji no século IV d.C., onde estão expostas as causas, etiologias e tratamentos para as “doenças frias”, conformam tais obras a mais sólida base para o entendimento da Medicina Clássica Chinesa, que inclui ainda as massagens, a quiroprática, a dietética e o ki cong.
Nos primeiros cinco séculos da era cristã o movimento taoísta exerceu larga influência na China. Deixou suas marcas junto à medicina, criando a noção de hospitalização e desenvolvendo sobretudo seu perfil preventivo, estreitando vínculos com os conhecimentos astronômicos, dos ciclos das estações e as estratégias de ação no tempo/espaço. O I Ching e o Tao te king são duas obras que não podem ser perdidas de vista, ao se tratar dos primórdios da medicina clássica. O wu wei (princípio taoísta de oportunidade na ação) passa a ser uma diretriz para o acupunturista.
Novo surto de desenvolvimento médico ocorreu na dinastia Song (960-1279), quando muitas compilações de antigos ensinamentos foram realizadas e novos livros foram escritos. Os primeiros bonecos de bronze com a localização de pontos para facilitar o ensino da acupuntura datam deste período, assim como mapas e diagramas com o trajeto dos meridianos. Obras clínicas com estudos de doenças, desenvolvimento da moxabustão e outras técnicas igualmente conhecem expansão.
O interesse pela anatomia física cresce e, entre 1041 e 1048, diversos condenados à morte foram dissecados, com a finalidade de estudo. Sem abandonar as preocupações arcaicas, porém, surgem inovações nos tratamentos: o desenvolvimento do “método da Tartaruga Mística” (que utiliza complexas equações astronômico-matemáticas para inferir pontos de tratamento); bem como um crescente interesse pela etiopatogenia. Uma nova sistematização de pontos e meridianos é empreendida, generalizando-se as considerações sobre a circulação horária dos Sopros (qi).
Um formidável aumento no número de prescrições da farmacopéia ajudou a consolidar este importante campo de recursos terapêuticos. Na dinastia Yuan (1279-1368) quatro escolas doutrinárias disputam a primazia sobre as princípios de base: a do heijin (consolidação da relação entre o meio ambiente e as patologias); a do gongxia pa (que se bateu pelo princípio de fixar o qi correto do paciente); a do wen bu, wen pai ( que elegeu a regulação do Baço/Estômago como um princípio central de terapêutica); e a do ciyin pai (que recomendava, sobretudo, reforçar o yin do paciente).
Nos séculos seguintes estas quatro escolas irão se absorver e se adaptar mutuamente. As quatro escolas médicas continuarão suas disputas e datam do século XVII as discussões em torno da localização do mingmen (“portal da vida”). Tanto a farmacopéia quanto a profilaxia ganham novos impulsos no século XVIII, consolidando- a.
Os Ming e os Qing governarão a China entre 1368 e 1911. Após um período de poucas inovações, a medicina clássica conhecerá outra grande fase de desenvolvimento no século XVI, com a publicação da Grande Enciclopédia Universal de Medicina do Passado e do Presente, em 1556.
Multiplicam-se novos textos de caráter prático e um novo gênero pedagógico: os estudos de caso. Nos séculos seguintes obras sobre as diversas fases do passado e sobre a vida de médicos ilustres serão publicadas.tradição preventiva dos recursos chineses destinados à saúde e à longevidade.
Em meados do século seguinte instalam-se na China, através dos missionários europeus, os primeiros hospitais vinculados à medicina ocidental. tradição preventiva dos recursos chineses destinados à saúde e à longevidade. atingindo todas suas instituições.
Em 1840 tem início a derrocada do longo Império Amarelo: em sua expansão colonialista a Inglaterra conquista Hong Kong e, logo após, outras cidades do país. A Guerra do Ópio, as invasões russa e japonesa, colocarão a China em permanentes tumultos, Através de um decreto imperial a medicina tradicional terá seu exercício limitado e será considerada oficialmente banida do território; embora nunca deixasse de ser praticada nos vilarejos e entre os camponeses. Em 1911, com a proclamação da República, a Medicina Clássica Chinesa voltará a ser oficializada e conhecerá novo impulso. Após 1949, com a República Popular, ela ganhará uma notável e decisiva expansão, quer dentro da própria China quer no âmbito internacional.
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Vocês dão curso de Cones Chineses?
Obrigada.
Não, infelizmente não ministro o curso, mas recomendo que dê uma olhada na seção Meus Links, que tem o link do pessoal que ministra o curso.
Excelente sumário do desenvolvimento da medicina tradicional chinesa. Para o leitor ocidental seria ótimo se a autor explicasse pormenorizadamente o método da “tartaruga mística”, já que na versão da m.t.c divulgada pela República Popular Chinesa não há qualquer referência ao papel dos astros, que já aparece claramente no “Nei Ching”.